Agressividade


 Agressividade que fala da minha dor – por Marli Miranda


Durante muitos anos, eu não compreendia minhas reações. Gritava, rebatia, explodia. Qualquer tom mais ríspido já acendia em mim um alerta de sobrevivência. Não era sobre a conversa em si, era sobre uma menina ferida que vivia dentro de mim. A criança que presenciou as agressões que minha mãe sofria. Aquela que via os olhos tristes dela e não entendia como tirar sua dor.

Me recordo da Xuxa passando com sua nave encantada e meu único desejo era que aquela nave passasse na minha casa, só pra ver minha mãe sorrir. Era tudo que eu queria: ver aquele rosto cansado se iluminar. Mas nunca aconteceu.

Cresci dizendo pra mim mesma que eu nunca aceitaria ser tratada como ela foi. Que se alguém tentasse me colocar pra baixo, eu levaria junto. Criei um escudo. Minha agressividade era a forma que encontrei de não cair, de não reviver o que doía.

Lembro de um episódio marcante: pedi desculpas para uma colega depois de uma briga. Disse que me desculpava pela forma como falei, mas não pelo que eu pensava. Hoje percebo que aquele pedido, ainda que imperfeito, era o que eu conseguia oferecer naquele momento.

Na verdade, eu não sabia lidar com a minha dor. Minha agressividade era a minha defesa, meu grito interno de “não vou permitir que me machuquem como machucaram ela”.

Hoje eu compreendo: minha dor não me faz menos digna, nem minha forma de reagir me define por completo. Estou aprendendo a cuidar das minhas feridas sem ferir.

Essa é uma das cicatrizes que falam – e falar cura.

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