O Amor que Aprisiona


 🕊️ O Amor que Aprisiona


Por Marli Miranda – para o blog Cicatrizes que Falam


Eu devia ter quatro ou cinco anos quando vi, pela primeira vez, o amor se transformar em medo. Lembro do corpo do meu pai em fúria. Lembro do rosto da minha mãe. O silêncio dela gritava mais do que qualquer som naquela casa. Ela ameaçou ir embora. E naquele instante, por um segundo, o mundo pareceu possível. Mas ela não foi.


Sete filhos.


Era esse o peso que segurava suas pernas no chão. Sete bocas, sete corpos pequenos, sete corações que batiam dentro do peito dela — e talvez o meu fosse o que mais apertava. Me agarrei às suas pernas, olhei para cima com os olhos de uma criança que não entendia o que estava pedindo, mas sabia que se ela fosse, eu iria também.


Disse com a voz embargada:

"Se a senhora for, eu vou."


E eu vi.


Vi as lágrimas escorrerem, mas não eram só tristeza. Eram medo, eram culpa, eram amor e prisão no mesmo fio d’água. Ela chorava pela dor, mas chorava mais ainda por saber que não tinha escolha. Porque se ela fosse, quem cuidaria da gente? Quem daria conta da fome, das doenças, das noites mal dormidas? E, principalmente: quem daria conta da culpa?


Ali, com quatro ou cinco anos, eu entendi uma coisa que criança nenhuma deveria entender:

que o amor, às vezes, aprisiona.


E eu fiz uma promessa secreta.

Se um dia eu tivesse filhos, eu não queria ficar presa.

Se um dia alguém me ferisse, eu queria poder ir embora.

Se a vida fosse cruel comigo — como foi com ela — eu queria ter saída.


Desde então, algo em mim se retraiu.


Fui crescendo como quem caminha pisando em cacos.

Aprendi a esconder sentimentos como quem esconde comida durante a guerra.

Passei a acreditar que amar era perigoso.

E que me apegar significava me acorrentar.


Com o tempo, me tornei uma mulher de poucos amigos.

Me fechei em mim mesma, como se o mundo lá fora fosse hostil demais.

Dizia que gostava de estar só, mas, no fundo, era só medo.

Medo de me decepcionar.

Medo de prender ou ser presa.

Medo de amar e perder.

Medo de repetir a história que me formou.


E até hoje, quando alguém se aproxima com carinho, quando alguém me estende a mão, meu primeiro impulso é recuar.

Porque carinho, para mim, é campo minado.

Não sei receber amor sem pensar no que ele pode cobrar depois.

Não sei ser vulnerável sem lembrar da minha mãe, parada no meio da sala, com sete filhos ao redor e o coração em pedaços.


Enquanto tantos sonham com amor,

eu sonho com liberdade.

Enquanto tantos correm para os braços de alguém,

eu fujo — não por desprezo, mas por proteção.

Porque eu aprendi cedo demais que nem todo amor é seguro.

E nem toda prisão tem grades.


E mesmo assim…

Mesmo assim há uma parte de mim, pequena e persistente,

que ainda deseja ser vista, acolhida, compreendida.

Uma parte que ainda sonha com um amor que não doa.

Com um toque que não machuque.

Com uma casa onde o amor seja abrigo — não cela.


E talvez, só talvez, esse texto seja uma tentativa de me libertar.

De dizer em palavras o que ficou engasgado por uma vida inteira.

De honrar a dor da minha mãe.

E de perdoar a criança em mim, que não podia entender o que pedia,

mas que só queria ser amada…

Sem medo.


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