Onde está a sua paz?
Por Marli Miranda
Já foi tempo em que bastava ler um bom livro para curar feridas profundas. Hoje, os livros continuam sendo preciosos companheiros, mas aprendi que há dores que pedem mais: pedem escuta, presença, coragem e, acima de tudo, autocompaixão.
No meio das minhas dores — entre agressões silenciosas e desrespeitos sutis — ouvi algo que mudou o rumo da minha cura. Leandro Karnal, em uma de suas falas, perguntou: “Onde está a sua paz? Será que ela está em cima do capô de um fusca, à disposição de qualquer um que queira levar?”
A pergunta me atravessou como um raio. Era exatamente assim: a minha paz estava sempre fora de mim, exposta, vulnerável. Bastava um tom de voz alterado, um olhar torto, uma palavra mal colocada, e pronto — eu reagia. Gritava. Atacava. Me defendia de perigos que às vezes só eu enxergava. E quem assistia de fora, se chocava. “Por que ela explodiu assim?”, perguntavam. Ninguém via o que eu via. Ninguém sentia o que eu sentia.
Mas eu sentia. E isso já bastava para doer.
Foi então que comecei a mergulhar em podcasts, vídeos, livros, terapias e conversas sinceras comigo mesma. Cada conteúdo era um nó que se desfazia. Cada lágrima era uma parte do meu passado se dissolvendo com amor. Aos poucos, fui compreendendo que reagir não me protegia — me aprisionava.
E um dia aconteceu: alguém falou alto comigo, e eu… não reagi. Não gritei. Não esquentei. Senti algo diferente. Como se um lado meu dissesse: "Vamos lá, responde! Grita! Se impõe!", e o outro lado, sereno, sorria e dizia: "Você conseguiu."
Essa é a verdadeira liberdade.
A cura não é um grito de vitória, é um sussurro de paz. Ela vem devagar, dia após dia, nos ensinando a sermos nossos próprios portos seguros. E quando alguém tenta nos tirar do eixo, percebemos que nossa paz já não está mais sobre o capô de um fusca qualquer — ela está dentro de nós.
Meu chefe me disse esses dias:
“Mar, admiro como você fala das suas dores com leveza, como se tivesse feito as pazes com elas.”
Respondi com um sorriso:
“Tenho 48 anos e, ao longo do caminho, aprendi que dor não se esconde — se ressignifica.”
Minha paz não está mais no capô de um fusca!
Se você também carrega uma dor que ninguém entende, saiba: existe cura. Às vezes não sabemos nem por onde começar. Mas o simples fato de reconhecer que dói… já é um começo.
Você não está só. E sua paz merece estar no lugar certo: em você.
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